quinta-feira, 8 de junho de 2017

Silêncio....


Silêncio, nostalgia...
Hora morta, desfolhada,
sem dor, sem alegria,
pelo tempo abandonada.

Luz de Outono, fria, fria...
Hora inútil e sombria
de abandono.
Não sei se é tédio, sono,
silêncio ou nostalgia.

Interminável dia
de indizíveis cansaços,
de funda melancolia.
Sem rumo para os meus passos,
para que servem meus braços,
nesta hora fria, fria?

Fernanda de Castro, in "Trinta e Nove Poemas"






Foto - Porto/PT

terça-feira, 30 de maio de 2017

Tenho tanto sentimento.....




Tenho tanto sentimento 
Que é frequente persuadir-me 
De que sou sentimental, 
Mas reconheço, ao medir-me, 
Que tudo isso é pensamento, 
Que não senti afinal. 

Temos, todos que vivemos, 
Uma vida que é vivida 
E outra vida que é pensada, 
E a única vida que temos 
É essa que é dividida 
Entre a verdadeira e a errada. 

Qual porém é a verdadeira 
E qual errada, ninguém 
Nos saberá explicar; 
E vivemos de maneira 
Que a vida que a gente tem 
É a que tem que pensar. 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"





Foto - Off road Lorena - Cunha

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Marcas do tempo ...


Tenho marcas no corpo
Feitas a contra gosto...
Em cada ano...
Um traço novo!
Qual mapa precioso
Que guarda um tesouro...
Desgastei-me aos poucos
No longo caminho da vida
Que me fugia...
Que corria sempre
Dois passos à frente!
E sorria...
E eu... envelhecia...
Não há reviravolta
Nem contravolta
Nem tampouco revolta
Sou o tempo sem volta!...

Maria de Lurdes Dias