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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Definitivo


Definitivo, como tudo o que é simples. Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram. 

Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade. 

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender. 

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada. 

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar. 

Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. 

A dor é inevitável. O sofrimento é opcional...
Martha Medeiros



Foto - Paraty/RJ

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Silêncio....


Silêncio, nostalgia...
Hora morta, desfolhada,
sem dor, sem alegria,
pelo tempo abandonada.

Luz de Outono, fria, fria...
Hora inútil e sombria
de abandono.
Não sei se é tédio, sono,
silêncio ou nostalgia.

Interminável dia
de indizíveis cansaços,
de funda melancolia.
Sem rumo para os meus passos,
para que servem meus braços,
nesta hora fria, fria?

Fernanda de Castro, in "Trinta e Nove Poemas"






Foto - Porto/PT

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Uma voz na pedra


Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

A. Ramos Rosa




Foto - Rochas na praia de Trindade,RJ

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Silêncio.....




É uma pedra
Ou é um grito
De um amor por acontecer

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p'ra onde vou
E esta pedra
E este grito
São a história d'aquilo que sou

Às vezes sou o tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar

Às vezes sou também
Um sim alegre
Ou um triste não
E troco a minha vida por um dia de ilusão.


Excerto do poema "Silêncio e Tanta Gente"

Maria Guinot









Foto - Trindade, RJ


sexta-feira, 31 de março de 2017

E fecho a janela.....



Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.


 Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLIX"
Heterónimo de Fernando Pessoa




Foto - Fazenda Morada do Castelo, Resende/RJ

domingo, 26 de março de 2017

Em seara alheia...


Primeiro era o breu,
depois o silêncio!
Não existia nada
para lá do vazio.
Depois nasceu o verbo
que acendeu as luzes
e os poetas viram
que havia um mundo
imenso à espera
do seu olhar perspicaz
e das suas palavras.

Emanuel Lomelino 







Foto - Fazenda Morada do Castelo, Resende/RJ

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Caminho Só....


Caminho e neste perigrinar
Olho horizontes sem volta
Cansada de para trás olhar
Trago do tempo lesões
E a minha alma já solta
Eu sem tempo para ilusões.

Gritos silenciosos em mim
Passo cansado,acercando-me do fim
Caminho só!
Poe veredas e caminhos
Vou pisando do chão o pó
Meus sonhos são agitados
E pesadelos vizinhos.
Meus sonhos estão acabados!?
Meus olhos verdes castanhos
Hoje me parecem estranhos.

Vou morrer no fim da estrada
Num entardecer qualquer
Ou talvez num amanhecer?!
Mas por hora quero viver!
Mesmo nesta hora agitada.

Meu destino deu-me esta sorte
Deixa-me ir sonhando assim
Até que surja por aí a morte
E esta se lembre de mim.
Está-se meu tempo esgotando
Devolve-me perguntas sem resposta
Ao destino todo o resto vou deixando
Ele que faça de mim aposta.

Rosa Fogo


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Entre o luar e o arvoredo



Entre o luar e o arvoredo,
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo.
Tudo é não ter nem encontrar.
Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a  brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.

Fernando Pessoa 










Foto - PDS Serra da Canastra, MG

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Eu Te Amo




Ah, se já perdemos a noção da hora Se juntos já jogamos tudo fora
 Me conta agora como hei de partir Rompi com o mundo, queimei meus navios Ah, se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios Me diz pra onde é que inda posso ir Diz com que pernas eu devo seguir Se nós, nas travessuras das noites eternas Já confundimos tanto as nossas pernas Se entornaste a nossa sorte pelo chão Se na bagunça do teu coracão Meu sangue errou de veia e se perdeu Como, se nos amamos feito dois pagãos Teus seios inda estão nas minhas mãos Como, se na desordem do armário embutido Meu paletó enlaça o teu vestido E o meu sapato inda pisa no teu Me explica com que cara eu vou sair Não, acho que estás te fazendo de tonta Te dei meus olhos pra tomares conta Agora conta como hei de partir...Ah!...



Tom Jobim - Chico Buarque







Foto - Prainha da Jacuba, Resende/RJ

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Eu...


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida! ...

Sou aquela que passa e ninguém vê ...
Sou a que chamam triste sem o ser ...
Sou a que chora sem saber porquê ...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

#2/52semanasdegratidão






Foto - Igreja Matriz de Resende, RJ

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Mais do que doce...


...é saber que tudo se move a nossa volta, tudo se transforma e, até mesmo quando nos recusamos a acompanhar a dança da vida, sem percebermos, ela nos tira pra dançar, nos envolve com um ritmo novo. Quando isso acontece? Quando nos abrimos para a magia de viver e respirar as entrelinhas, os silêncios.

Caio Fernando Abreu








Foto - Sapucai Mirim, MG