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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Deixa em cima desta mesa a foto...




Deixa em cima desta mesa a foto que eu gostava 
Pr'eu pensar que o teu sorriso envelheceu comigo 
Deixa eu ter a tua mão mais uma vez na minha 
Pra que eu fotografe assim meu verdadeiro abrigo(...) 

Deixa o meu olhar doente pousado na mesa 
Deixa ali teu endereço qualquer coisa aviso 
Deixa o que fingiu levar mas deixou de surpresa(...) 

Deixa a minha insanidade é tudo que me resta 
Deixa eu por à prova toda minha resistência 
Deixa eu confessar meu medo do claro e do escuro(...) 


Trechos da música de Oswaldo Montenegro - Se puder sem medo 







Foto - Solar Manuel de Aguiar Vallin
Construído em meados do século XIX, este sobrado evidência a riqueza de uma época em Bananal, SP

quarta-feira, 4 de abril de 2018

A arte de ser feliz...

Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.


Cecília Meireles





Foto - Estrada Resende - Arapeí

terça-feira, 28 de março de 2017

Pedaço de mim....



Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

Chico Buarque

domingo, 26 de março de 2017

Em seara alheia...


Primeiro era o breu,
depois o silêncio!
Não existia nada
para lá do vazio.
Depois nasceu o verbo
que acendeu as luzes
e os poetas viram
que havia um mundo
imenso à espera
do seu olhar perspicaz
e das suas palavras.

Emanuel Lomelino 







Foto - Fazenda Morada do Castelo, Resende/RJ

sábado, 25 de março de 2017

O Mapa...



(...)Quando eu for, um dia desses, 
Poeira ou folha levada 
No vento da madrugada, 
Serei um pouco do nada 
Invisível, delicioso.

Que faz com que o teu ar 
Pareça mais um olhar, 
Suave mistério amoroso, 
Cidade de meu andar 
(Deste já tão longo andar!) 

E talvez de meu repouso... 

Mario Quintana











Foto - Lago de Furnas, MG

quinta-feira, 16 de março de 2017

Aos nossos olhos....



Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo. É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações.
Martha Medeiros

Foto - Flores em Francisco Xavier, SP

segunda-feira, 6 de março de 2017

Despedidas....



Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.
Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!
Nada mais é gratuito, tudo é ritual
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm os que amando tudo o que perderam
já não mentem.
 Affonso Romano de Sant’Anna 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

A Escrita das Águas....


Olho em meu redor.
A chuva afaga as raízes das árvores
e agita seus ramos como se fossem
mantilhas de seda agasalhando
os pássaros no rodeio do vento.
Sei que o tempo não se detém.
Os muros mais severos assinalam,
sem dissonância, a escrita
repisada das águas que a idade
guardou na borda das pedras.

Graça Pires


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Vem depressa...



Corre….. agarra a minha mão! Vem depressa, para veres este maravilhoso pôr-do-sol. Ele já vestiu o pijama e quer deitar-se! Está cansado de brilhar, mas gosta de nos beijar antes de se retirar. Anda lá, ele não espera. Corre mais um pouco. Mais uns segundos e já não o verás e perderás a oportunidade de um beijo tão belo...

Ana Maria Cortinhas















Foto - Pôr do Sol - Paraty


sábado, 28 de janeiro de 2017

Saber Viver....



Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas. Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita, 
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que acaricia,
desejo que sacia,
amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa,
verdadeira, pura enquanto durar.
Feliz aquele que transfere o que sabe
e aprende o que ensina.

Cora Coralina




#4/52semanasdegratidão








Foto - Praça das flores, Nova Petropólis,RS